- Computação quântica avança, mas ainda enfrenta obstáculos técnicos críticos
- Brasil investe R$ 5 bilhões para entrar na corrida quântica global
- Desafios incluem segurança, ética e escassez de profissionais qualificados
A computação quântica, com sua promessa de resolver problemas hoje intransponíveis, solidifica-se como a maior aposta tecnológica global. O entusiasmo permeia desde o SXSW 2025, onde líderes como Arvind Krishna (IBM) e Jensen Huang (Nvidia) projetaram sua chegada ao mercado nesta década.
Até o Google vislumbra aplicações práticas nos próximos cinco anos. O Brasil, ciente do potencial disruptivo, também se posiciona: o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação elabora um plano nacional de desenvolvimento, prevendo um investimento de R$ 5 bilhões até 2024, combinando setores público e privado para inserir o país na vanguarda.
Apesar do otimismo, é fundamental ir além do “hype” para compreender os desafios que se impõem à tecnologia revolucionária.
A Pesquisa Tecnologia Bancária 2025, do Febraban, embora a posicione na curva de adoção de tecnologias disruptivas junto a Cloud, IA e Blockchain, aponta para uma realidade mais complexa. Para Paulo Watanave, Diretor de Operações de Data & AI na NAVA, as empresas precisam ter clareza sobre o que está, de fato, em jogo.
“Há, ainda, muitos obstáculos técnicos a serem superados, especialmente as instabilidades físicas dos próprios qubits, o iminente risco à criptografia atual e a viabilidade comercial em larga escala”, afirma.

Computação quântica
Assim, a verdadeira complexidade da computação quântica reside na sua natureza fundamental. Diferente dos bits clássicos (0 ou 1), os qubits – os “dançarinos quânticos” – podem ser 0 e 1 simultaneamente. Essa superposição os torna exponencialmente mais poderosos.
Contudo, a fragilidade desses estados é o seu calcanhar de Aquiles: a decoerência. A alta taxa de erros nos qubits, a exigência de condições físicas extremas – como temperaturas próximas ao zero absoluto e isolamento total contra vibrações e ruídos –, são manifestações desse desafio primordial.
“Qualquer mínima alteração nesses fatores torna o sistema instável, dificultando a escalabilidade e a viabilidade prática no curto prazo”, explica Watanave. “Apesar dos avanços em linguagens de programação quânticas, o contexto geral ainda está numa fase quase experimental, onde o desafio de engenharia é tão monumental quanto o da própria física.”
Desse modo, o caminho mais provável no curto e médio prazo é a computação híbrida quântico-clássica, onde os processadores quânticos atuam como aceleradores especializados para partes de problemas complexos, operando em conjunto com a infraestrutura clássica.
Segurança da computação quântica
Do ponto de vista de segurança, a computação quântica representa um desafio existencial para a criptografia que hoje protege nossos dados. “Atualmente, a maioria das ferramentas de segurança baseadas em criptografia pode ser facilmente superada por um computador quântico de grande escala”, destaca Watanave.
Assim, essa preocupação levou ao surgimento do conceito “Colha Agora, Decifre Depois”: dados criptografados hoje, mas roubados, podem ser armazenados por atacantes e decifrados no futuro, quando computadores quânticos mais poderosos estiverem disponíveis.
Diante disso, a transição para a Criptografia Pós-Quântica (PQC) é uma corrida global. A preocupação com a segurança levou o Centro Nacional de Segurança Cibernética do Reino Unido a estabelecer um cronograma. O objetivo é que grandes organizações atualizem seus sistemas criptográficos até 2028.
Dessa forma, até lá, a adoção ampla da computação quântica pode ser deliberadamente adiada, para evitar vulnerabilidades massivas durante a transição criptográfica.
Além disso, a capacidade de simular moléculas para novos fármacos é tão poderosa quanto a de quebrar sistemas de defesa. Esse aspecto levanta a discussão sobre tecnologias de duplo uso.
Assim, a capacidade de simular moléculas para novos fármacos é tão poderosa quanto a de quebrar sistemas de defesa, levantando a discussão sobre tecnologias de duplo uso.
Falta de talentos
Outro ponto pouco comentado é a escassez de talentos especializados em computação quântica. Não basta ter cientistas de dados ou programadores. São necessários físicos, matemáticos e engenheiros com entendimento profundo da mecânica quântica e de suas aplicações computacionais. A formação dessa nova geração de especialistas é um investimento de longo prazo.
Para o executivo, estamos vivenciando o nascer de uma fronteira tecnológica promissora, com potencial para transformar radicalmente da ciência à indústria (descoberta de fármacos, modelagem financeira complexa, otimização logística, novos materiais).
Apesar do entusiasmo crescente, especialistas alertam que é essencial adotar uma visão crítica e realista diante dos desafios ainda não superados.
“Só garantiremos a distribuição ampla e sustentável dos benefícios dessa revolução tecnológica se orquestrarmos cuidadosamente o potencial do caos quântico com a governança humana.”
