- Harari avalia que narrativas geradas por IA confundem realidade e ficção.
- IA pode substituir burocratas humanos no governo.
- Harari defende educação voltada ao caos e ao desconhecido.
Yuval Noah Harari, historiador e autor de “Sapiens”, alertou que a humanidade pode perder o controle das próprias histórias com o avanço da inteligência artificial. O autor, que participa da abertura do novo festival de inovação SP2B em São Paulo, declarou que a IA tem poder de moldar narrativas com mais persuasão do que qualquer humano.
Em uma entrevista concedida à Folha de São Paulo, Harari enfatizou:
Antes da IA, todas as histórias que moldavam as sociedades vinham da imaginação humana. Por mais estranha —fosse um mito religioso ou uma teoria conspiratória—, sabíamos que um humano a inventara. Hoje, pela primeira vez, perdemos essa certeza. Não só não sabemos se a história que ouvimos foi criada por uma IA como tampouco sabemos se quem a conta não é um robô.
Ele destacou que as máquinas já conseguem manipular pessoas apenas com linguagem — a mesma ferramenta usada há milênios por poetas e profetas.
A crítica surge em um momento de ascensão das tecnologias generativas e da aproximação entre empresas de tecnologia e governos. Harari mencionou a aliança entre bilionários do Vale do Silício e Donald Trump como uma tentativa de transferir poder de burocratas humanos para algoritmos, o que poderia aumentar a opacidade do Estado.
Se você acha ruim lidar com burocratas humanos, espere até encarar um algoritmo sem rosto decidindo se você consegue um emprego, um empréstimo – ou se vai para a prisão.
Ordem mundial fragilizada amplia riscos com IA, afirma Harari
A revolução da IA ocorre em meio ao colapso da ordem liberal global, afirmou Harari. De acordo com ele, a ausência de normas comuns para o desenvolvimento da tecnologia torna o cenário mais propenso a conflitos armados e corrida armamentista com sistemas autônomos. Em uma guerra, por exemplo, entre OTAN e Rússia, se um lado delegar decisões à IA, o outro seria pressionado a fazer o mesmo.
De acordo com a avaliação dele, a corrida de IA pode ser prejudicial, já que um desenvolvedor não confia no outro, o que acelera o processo e impede que ele seja realizado com mais segurança.
Ele também ressaltou que a superinteligência artificial — ou IA geral — pode surgir sem que as máquinas desenvolvam consciência. “Vai ser cada vez mais difícil saber se uma IA é consciente”, afirmou. Para Harari, o risco está em construir um universo cheio de inteligência, mas vazio de sentimentos.
Na visão do historiador, o mundo precisará de pessoas preparadas para enfrentar o caos.
Uma educação útil para a era da IA deve ajudar a pessoa a se sentir confortável diante do desconhecido.
Ele sugere que escolas abandonem provas que testam memorização e invistam em criatividade e adaptabilidade.
Harari é israelense, professor e historiador, com vasta formação acadêmica. É autor dos best-sellers mundiais “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, “Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã” e “21 Lições para o Século 21”. Os traduzidos para 65 idiomas, inclusive o português.
