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- Falsos canais true crime tem gerado engajamento no YouTube.
- Dilema ético em conteúdos sensacionalistas.
- Plataformas falham em fiscalização eficiente.
O “True Crime” (Crime Real) atrai muitos interessados e o gênero só fez crescer com a popularização do YouTube. Acontece que um novo fenômeno tem se tornado popular, os canais que trazem “crimes reais” inventados por IA e enganam milhares de pessoas.
Um artigo do 404 Media fez um apuração sobre o que vem ocorrendo e como este tipo de desinformação pode ser muito prejudicial.
Um caso citado na matéria ocorreu em agosto do ano passado, quando a repórter Elizabeth Hernandez, do Denver Post, recebeu uma enxurrada de mensagens questionando por que o jornal não havia noticiado um “assassinato macabro” ocorrido em Littleton, Colorado.
As mensagens eram reações a um vídeo do YouTube intitulado “O caso de amor gay secreto do marido com o enteado termina em assassinato macabro”, que acumulou quase 2 milhões de visualizações. A investigação de Hernandez, porém, revelou uma verdade perturbadora: o crime nunca existiu.
O vídeo de 26 minutos, narrado por uma voz sintética e ilustrado com imagens estáticas geradas por IA, fazia parte do canal True Crime Case Files, que postou mais de 150 conteúdos similares em 2024.
Entre os títulos, destacavam-se narrativas como “Xerife assassinado após caso com secretária” (30 mil visualizações) e “Treinador transmite HIV a líder de torcida” (10 mil visualizações). As histórias, totalmente fictícias, misturavam elementos sensacionalistas e clickbait, sem qualquer aviso sobre o uso de IA.
O impacto social do true crime virtual
Em entrevista à 404 Media, o diretor do canal tentou se justificar:
Precisa ser chamado de “true crime” porque é um gênero. Eu queria que [o público] pensasse sobre por que […] eles se importam tanto que seja verdade, por que importa tanto para eles que pessoas reais estejam sendo assassinadas.
Ele admitiu que 50% dos vídeos eram produzidos com ChatGPT e ferramentas de imagem por IA, enquanto os demais detalhes eram edições manuais. Cada vídeo levava cerca de 2h30 para ficar pronto, e Paul defendia a prática como uma “forma de arte absurda”, alegando que não explorava vítimas reais.
Apesar da defesa de Paul, especialistas criticam o impacto desses conteúdos.
Annie Nichol, defensora de vítimas de crimes reais, argumenta que a desinformação gera os mesmos danos sociais:
As vítimas são usadas dessa forma pela mídia e pelos criadores de conteúdo de crimes reais. Nosso trauma é frequentemente cooptado e explorado para lucro. Então, alguém gerando [falsos] crimes reais de IA para lucro certamente não está ajudando as vítimas de forma alguma.
Pesquisas já apontam que o gênero true crime tradicional pode aumentar o medo injustificado de violência e banalizar tragédias reais.
O YouTube agiu em janeiro, excluindo o canal de Paul por violar políticas de segurança infantil e sexualização de menores. Jack Malon, porta-voz da plataforma, confirmou a decisão, mas canais similares como “Histórias de crimes familiares ocultos” continuam ativos. Enquanto isso, versões em áudio dos vídeos de Paul permanecem no Spotify, que não se pronunciou sobre o caso.
Paul, que chegou a ganhar R5.760 (US$ 1 mil) mensais com a monetização, viu a iniciativa como uma “corrida do ouro” digital, em que ele foi pioneiro.
Seu experimento, porém, expõe um risco crescente: ferramentas de IA democratizam a criação de fake news. Além disso, destaca como plataformas ainda falham em combater a onda de lixo virtual.